Ele era porteiro em um prédio de Copacabana quando encontrou algumas revistas de moda jogadas no lixo. Ao folheá-las, o hoje o empresário Júlio César Lima não achou em nenhuma delas modelos que reproduzissem estilo, cor de pele ou cabelos da periferia onde morava.
Foi assim que Júlio criou a Jacaré Modas, e é um dos personagens retratados pelo cineasta Emílio Domingos no documentário “A Favela É Moda”. Ao longo de quatro anos, o documentarista filmou a história de modelos e pessoas ligadas ao mercado fashion da comunidade na zona norte do Rio. Nas imagens há desde sonho com o sucesso nas passarelas a discussões sobre racismo, autoestima e falta de representatividade.
“A Favela é Moda” estreou no Festival do Rio na última sexta. Ainda não há data para ser exibido para São Paulo.
O início dessa jornada iniciada em 2015 também parece ter saído de um livro.
Emílio já havia lançado o documentário “A batalha do passinho”, em 2012, sobre campeonatos de bailarinos funks, e “Deixa na régua”, de 2016, no qual retrata a identidade periférica criada por cabeleireiros talentosos. Com o sucesso dos dois documentários, Emílio recebeu um telefonema de um representante de uma grife de moda. Do outro da linha, ouviu uma proposta para escalar pessoas negras para uma campanha publicitária. “A maioria da população brasileira é negra. Mas ele, como diretor de branding, não tinha esses contatos. Ali, ele me apresentou um problema. A maioria não é representada” , relembra.
Do início das filmagens até hoje, o mercado da moda investiu em incluir diferentes tipos de corpos em campanhas publicitárias. Segundo Emílio, com mais negros e pessoas periféricas nas universidades, as marcas foram pressionadas a discutir representatividade.